Aurora Boreal

Toque-me, leve-me de volta através das décadas, / Para cada momento, cada lágrima, cada nódoa impressa, / Para aquelas noites de vinte horas, / Os porquês e os agoras / Nada têm connosco. / E os seus pés na neve de janeiro, / E as suas mãos no sal do mar d’agosto, / Pelos quais ansiei um quarto de século inteiro, / Pertencerão, por um instante derradeiro, / Ao solo maleável, domável, d‘um afeto verdadeiro. / Toque-me! Aqui sim, noutro dia não, / Não haverá tempo, mas então haverá perdão, / Babilónia está liberta, a minha alma desperta, / Sob luz de novo clarão. / E os meus pés já não estão no chão. / Há muito perdi a razão, / Mas aqui reencontro o meu pequeno coração. / E se estender, à esquerda, a minha mão, / Cinco dedos tocá-lo-ão, / Como se um simples gesto pudesse gritar... Gratidão. / Gratidão na solidão, / Na solidão que vislumbra um irmão. / E leito onde se deitar, / Enfim repousar, / De meia vida passada como um borrão.

Comentários